Impactos socioambientais colocam pecuária na berlinda
17-01-2008

Pesquisas da sociedade civil mostram a relação da atividade com o desmatamento de florestas nativas e problemas trabalhistas. Exportação de carnes cresceu 477% de 2000 a 2007 e atingiu US$ 11,3 bilhões

Por Maurício Hashizume

A carne bovina no Brasil tem se destacado não apenas pela disparada no seu volume de exportações, mas também pelos questionamentos sobre práticas ilegais e insustentáveis relacionadas à sua produção, como queimadas e desmatamentos de florestas nativas e exploração de mão-de-obra escrava.

Em balanço recente sobre a evolução do agronegócio nacional, a exportação do complexo carne (bovina, de frango e suína) aparece com destaque, juntamente com o complexo soja (grão, farelo e óleo). Do total de US$ 58,4 bilhões exportados em 2007, 11,3 bilhões correspondem às carnes. A participação é de cerca de 20%, praticamente o mesmo montante amealhado pela soja. O crescimento impressiona em comparação ao ano de 2000, quando o segmento remeteu para o exterior US$ 2 bilhões. Ou seja, nos últimos sete anos, a exportação de carnes aumentou 477%. No mesmo período, as vendas externas do agronegócio subiram 183,4%.

Pesquisas elaboradas por organizações não-governamentais (ONGs), entretanto, dão conta do “outro lado” da pujante atividade econômica. Por exemplo, um estudo da ONG Amigos da Terra sobre a região amazônica identificou a ocorrência de uma “fase de pecuarização de intensidade sem precedentes”.

Segundo a organização, já existe um milhão de pequenos estabelecimentos na região amplamente dependentes da pecuária, “uma das principais forças motrizes do desmatamento e de queimadas na região, assim como uma das fontes principais da emissão de gases de efeito estufa”. Um terço da carne exportada pelo país vem da Amazônia Legal.

O documento divulgado pela ONG, que pede a aplicação de políticas públicas que exijam padrões sustentáveis e medidas mais efetivas de verificação e certificação, atribui esse avanço da pecuária a diversos fatores que atuam de forma sinérgica. Entre os principais, estão o dinamismo do mercado consumidor, a conjuntura do deslocamento do rebanho devido ao crescimento de outras atividades agrícolas no Sul e Sudeste, a impunidade na grilagem de terras e no crime ambiental, os investimentos em infra-estrutura que valorizam as propriedades da região e dão margem para a ação de especuladores, os investimentos na expansão do segmento industrial ao longo da fronteira agrícola e a recente inversão dinâmica da conjuntura da febre aftosa, com a liberação de gado vacinado do Sul do Pará para exportação.

“O programa de aproveitamento das áreas alteradas, que consta do Plano Interministerial para a Prevenção e Combate ao Desmatamento, lançado em 2004, também não saiu do papel”, salienta a ONG. O estudo cita ainda o trabalho de Judson Valentim, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Acre, segundo o qual os custos de recuperação de pastagem degradadas são expressivos e podem chegar a quatro vezes aqueles da utilização de novas terras recém-desmatadas. “Dessa forma, o discurso freqüente, de acordo com o qual não são necessárias novas terras para a atividade pecuária, não se transforma em realidade, pois mesmo não precisando, na ausência de investimento para cobrir esse custo, a realidade tende a reproduzir o modelo de expansão da fronteira”, conclui a pesquisa.

Outro levantamento concluído pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), que deve ser apresentado publicamente em breve, examina a conexão entre a oscilação dos preços das commodities agropecuárias no mercado internacional e a curva dos índices de desmatamento da Amazônia. O pesquisador Paulo Barreto cruzou dados de 1995 a 2006 e verificou que existe uma relação bastante consistente entre a valorização do preço do boi gordo com as taxas de desflorestamento do ano seguinte. Nas contas dele, 73% da variação do desmatamento durante o período analisado podem ser explicados pelo preço da carne bovina.

A pesquisa da cadeia produtiva produzida pela Repórter Brasil também confirma a predominância da pecuária entre as propriedades que fazem parte da “lista suja” do trabalho escravo – relação de empregadores que foram flagrados explorando mão-de-obra escrava mantida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Tomando como referência a “lista suja” de janeiro de 2007, é possível verificar que 62% das propriedades desenvolviam a criação de bovinos, seguidos pela produção de carvão (12%) e soja (5,2%). Neste mesmo universo pesquisado, 49% dos escravizados cuidavam do pasto. Até janeiro do ano passado, 3.729 trabalhadores foram libertados dessa atividade específica.