Modelo de consumo coloca vidas em jogo, analisa jornalista
29-05-2008

Debate revela necessidade de se avançar mais sobre o tema dos gargalos (entre jornalistas, no mercado de comunicação e nas empresas em geral e de mídia) que limitam a repercussão e a consolidação de uma cultura responsável

Por Maurício Hashizume

O debate do papel da mídia para o fortalecimento de um mercado responsável abriu, nesta terça-feira (27), a Conferência Internacional do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, evento anual que está sendo realizado no Centro de Convenções do Anhembi, em São Paulo.

A comunicação, salienta o vice-presidente executivo do Instituto Ethos Paulo Itacarambi, é um fator chave para a formação de uma cultura de responsabilidade que envolva o conjunto da sociedade. Para ele, é preciso avançar mais nas discussões sobre os gargalos (na divulgação das próprias empresas, entre os profissionais da imprensa, no mercado de comunicação e nas empresas de mídia) que dificultam a abordagem de temas como a produção sustentável e limitam espaços e repercussões.

O jornalista Ignacio Ramonet, do conceituado periódico Le Monde Diplomatique (que tem cerca de 70 edições diferentes distribuídas pelo mundo), vê uma pressão cada vez maior sobre as empresas. “Mas para mudar realmente, o sacrifício é bem maior”, coloca. A questão fundamental, segundo ele, está no modelo de consumo. “Se todas as 6,8 bilhões de pessoas consumirem como a classe média de São Paulo consome hoje, não haverá recursos suficientes para abastecer o mundo”. Para o jornalista, a proteção ambiental e os impactos sociais não são mais fatores “mundanos”. “São questões fundamentais para as empresas que colocam em jogo a vida das pessoas”.

O homem moderno promoveu uma ruptura com o seu entorno, adiciona Pollyana Ferrari, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Segundo ela, isso fez com que as pessoais buscassem se desvincular das conseqüências de suas ações, mas deixou expostos alguns “assuntos proibidos” expostos. Para a doutora em ciências da comunicação, as empresas não podem se voltar, portanto, apenas para os aspectos positivos de sua atuação. Daí a cobrança por balanços e relatórios mais realistas. “Não dá mais para não falar as coisas claramente”, completa.

A adoção do Índice Paulista de Responsabilidade Social (IPRS) – em vez do Índice de Potencial de Consumo (IPC) – sintetiza os princípios de responsabilidade adotados pela TV Cultura, conta Júlio Moreno, coordenador do núcleo de jornalismo da emissora pública. Desenvolvido juntamente com a Fundação Seade, o IPRS prioriza quesitos sociais em detrimento do poder de consumo do telespectador.

A TV Cultura, que mantém programas temáticos específicos com o Balanço Social, também promete ser a primeira emissora de TV a fazer o cálculo e divulgação de emissão de carbono por meio da metodologia “GHG (Greenhouse Gas) Protocol”, que busca incrementar a capacidade técnica e institucional de empresas no gerenciamento de suas emissões de gases de efeito estufa. A experiência está sendo conduzida em parceria com o Centro de Estudos em Sustentabilidade da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (GVces).