OIT chama atenção para “crise do trabalho de alto risco”
12-06-2008

Para o diretor-geral da OIT, Juan Somavia, além da crise financeira dos créditos subprime (alto risco), existe também a crise do trabalho subprime, ou seja, trabalhos vulneráveis e deficientes, sem direitos fundamentais

Por Repórter Brasil

“Temos escutado falar muito sobre a crise financeira dos créditos subprime (alto risco). Mas também existe o que eu chamaria de uma crise de ´trabalhosubprime´ – trabalhos vulneráveis e deficientes – sem direitos fundamentais, sem seguridade básica e sem perspectivas de mobilidade social e dignidade”.

O trecho acima fez parte do discurso do diretor-geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Juan Somavia, durante a 97ª Conferência Internacional do Trabalho que se realiza em Genebra, na Suíça.

Juan Somavia clamou por medidas urgentes para neutralizar a “globalização sem justiça social” em curso, caracterizada pelas galopantes diferenças de salário e de níveis de qualidade de emprego, do anormal crescimento produtivo e da estagnada redução da pobreza que existem em nível mundial.

“Precisamos um novo equilíbrio de políticas com base em papéis que se reforcem mutuamente: o papel do Estado para gerar políticas públicas, o dinamismo produtivo do mercado, a voz democrática da sociedade e as necessidades e escolhas das pessoas, suas famílias e comunidades”, receitou Somavia, antes de defender a importância da Agenda de Trabalho Decente da OIT, órgão ligado à Organização das Nações Unidas (ONU).

No mesmo discurso, o diretor-geral da OIT declarou que é possível mudar as vidas dos desprotegidos, que compõem 80% da população mundial. “Podemos expandir de maneira significativa as oportunidades de trabalho para as 3 bilhões de pessoas que vivem na pobreza. Podemos ajudar a avançar até um padrão de crescimento sustentável e de trabalho intensivo. Podemos consolidar o respeito aos direitos e ao diálogo como um caminho produtivo até à paz”.

Ele também se destacou a “ameaça de uma crescente inflação, uma desaceleração econômica e inclusive de uma recessão e desemprego” por conta da crise em escala mundial dos preços dos alimentos. Para Juan Somavia, este fenômeno está “golpeando os orçamentos das famílias e dos trabalhadores pobres, em particular, e também as finanças dos governos”.

Agendas cruzadas
A preocupação da OIT com a crise dos alimentos, questão que vem sendo trabalhada intensamente pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), gerou a criação de um site especial (http://www.fao-ilo.org) que busca salientar os pontos convergentes entre as agendas das duas agências que fazem parte do sistema das Nações Unidas.

“A maioria dos 1,5 bilhão de pobres que não tem a alimentação assegurada vive em áreas rurais e dependem da agricultura e de outras formas de produção ligadas ao meio ambiente, incluindo o extrativismo vegetal e a pesca, para viver. A criação de empregos produtivos, decentes e equitativos é chave para que esse contingente possa superar a pobreza e prover os meios para produzir ou adquirir alimentos adequados e nutritivos”, salienta o texto que apresenta o conteúdo do site aos visitantes.

O trabalho em parceria entre a OIT e a FAO se distribui em dez campos: empregos decentes, trabalho infantil, emprego para jovens, cooperativas, pequenas e médias empresas, trabalhadores rurais, saúde e segurança, gestão de crise, grãos, pesca e extrativismo vegetal e estatísticas laborais.

Governo brasileiro
Também em Genebra, o ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi,reconheceu que trabalhadores brasileiros enfrentam dificuldades, principalmente na área rural. “Os problemas existem e em uma quantidade ainda grande. Mas não somos como os americanos ou outros países que se recusam a debater o assunto. Nos últimos anos, libertamos mais de 28 mil trabalhadores [de consições análogas à escravidão] e intensificaremos nossos trabalhos nessa área”, declarou o ministro. O governo negocia a criação de um protocolo para garantir a padronização na produção de cana, com selo social.

Na última edição do programa semanal de rádio “Café com o Presidente”, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que o governo estuda junto com os empresários do setor de álcool e açúcar um contrato de trabalho para melhorar a situação dos cortadores de cana-de-açúcar. “Isto servirá para acabar com acusações de péssimas condições de trabalho no setor, que reconheço serem pesadas”, declarou o presidente Lula.