Apple expõe cadeia produtiva com graves problemas
05-03-2010

Relatório anual da Apple revela a ocorrência de casos de trabalho infantil e de trabalho forçado em fábricas que produzem telefones, computadores, MP3 players e outros produtos em países como China, Singapura e Filipinas

Por Repórter Brasil

A imagem de vanguarda tecnológica da Apple – que produz os famosos iPod, iPhone, MacBook e acaba de lançar o iPad – foi arranhada com a divulgação de um documento sobre as condições nas empresas que fazem parte da cadeia produtiva da corporação da indústria eletroeletrônica.

A própria Apple verificou as condições trabalhistas, sociais e ambientais de 102 parceiros fabricantes não identificados (a maioria das fábricas da Apple fica na China, mas a empresa mantém formecedores em Taiwan, Singapura, Filipinas, Malásia, Tailândia, República Tcheca e EUA) e condensou os resultados no “Supplier Responsability – 2010 Progress Report”.

Os dados são alarmantes: foram encontradas 17 violações mais “substantivas”, classificadas como “de tipo mais sério”. Foram três casos de contratação de trabalho infantil; oito casos em que trabalhadores pagaram “taxas de recrutamento” acima das permitidas pelas leis do país; três casos em que os fornecedores descartavam lixo tóxico de forma inadequada; e três outros flagrantes em que as contratadas apresentaram registros comprovadamente adulterados durante as auditorias feitas pela Apple em 2009.

As três fábricas envolvidas com trabalho infantil contrataram 11 adolescentes de 15 anos em países que exigem ao menos 16 anos para começar a trabalhar legalmente. A Apple declara no relatório que parte deles já atingiu a idade mínima e que nenhum trabalhava no momento das auditorias. No relatório de 2009 (relativo a inspeções em 2008), a Apple encontrou 25 jovens com idade inferior à permitida trabalhando em montadoras.

Trabalhadores estrangeiros em condições irregulares foram encontrados em oito plantas de produção fiscalizadas. Eles pagavam taxas de recrutamento maiores que as permitidas pelas legislações em vigor. Depois da análise detalhada de cada uma dessas contratações irregulares, os migrantes – que estavam submetidos a dívidas típicas de trabalho forçado – foram reembolsados em US$ 2,2 milhões por conta dos serviços prestados nos dois últimos anos.

Alguns outros problemas apontados no relatório da empresa norte-americana do célebre guru Steve Jobs também chamaram a atenção. A porcentagem de fábricas com licenciamento ambiental correto e sistemas de monitoramento caiu de 73% no relatório de 2009 para 57% no relatório de 2010. O percentual das que trabalham para prevenir doenças ocupacionais diminuiu de 19% para 61%. Os números das montadoras em termos de condições de alojamento e de alimentação, de ergonomia, de exposição a produtos químicos e de iniciativas antidescriminatórias também pioraram.

Apenas 65% das contratadas pela Apple estão pagando salários dentro da legalidade. No levantamento anterior, esse número foi de apenas 59%. Além disso, somente 46% seguem a política da Apple que trata da jornada de trabalho: mais da metade dos auditados colocam seus empregados para trabalhar 60 horas ou mais por semana.

No total, 24 fábricas não pagavam salário mínimo (cerca de 800 yuan, ou R$ 210) mensal para seus funcionários, segundo a síntese das auditorias. Em 2006, a Apple encontrou operários de uma fábrica chinesa de iPods cumprindo jornadas de 15 horas diárias por um salário de US$ 50 que, no câmbio atualizado, equivale a menos de R$ 100.

Veja a íntegra do relatório de responsabilidade socioambiental da cadeia produtiva da Apple