Para consumidores, preço ainda é o que mais pesa na compra
26-03-2010

Apenas 9% dos que responderam pesquisa declararam que o comportamento socioambiental do fabricante é decisivo para adquirir um produto. Fator mais determinante para a decisão de compra continua sendo o preço (35%)

Por Repórter Brasil

Apenas 9% dos consumidores entrevistados em pesquisa sobre consumo sustentável declararam que a preocupação referente ao comportamento socioambiental do fabricante é decisiva na hora de adquirir um produto. O fator mais determinante para a decisão de compra continua sendo o preço (35%), serguido de outros aspectos como características funcionais (19%), confiança na marca (16%) e disponibilidade (13%) do produto.

Os resultados fazem parte do levantamento feito pelo Monitor de Responsabilidade Social Corporativa (MRSC) 2010, da Market Analisys. A pesquisa procurou eliminar a confusão existente entre os termos “intenção de compra” e “ação concreta”, com foco na decisão efetiva na hora de consumir.

Segundo Fabian Echegaray, diretor da Market Analisys e coordenador do estudo,
a pesquisa de 2010 forçou o consumidor a “controlar o peso da variável sustentabilidade frente ao peso concorrencial dos outros fatores”, normalmente vinculados à escolha de um produto ou serviço, reproduzindo uma situação mais próxima da verificada no ponto de venda.

Os dados apenas confirmam que o consumo consciente no Brasil ainda se encontra em estágio inicial. Isso não significa, porém, que não haja espaço e ambiente para que o movimento se desenvolva. O Monitor de Responsabilidade
Social Corporativa (MRSC) 2009 apontou, por exemplo, que um em cada três
brasileiros já praticou, em algum momento, consumo responsável baseado no comportamento socioambiental das empresas.

Por meio dos dados colhidos, o relatório de 2009 dividiu os consumidores brasileiros em cinco grupos. O maior deles (59,3%) é o de consumidores
indiferentes às questões socioambientais. Compõe‑se de gente que, ao comprar produtos, não demonstra nenhuma preocupação ou interesse por punir ou premiar empresas conforme sua conduta sustentável. Olham exclusivamente
preço, disponibilidade e afinidade com marca.

No segundo grupo, estão os consumidores de recompensa, com 15,2%. São indivíduos que preferem premiar as mais sustentáveis a punir as menos, exercendo, de modo propositivo, seu papel de indução de mudanças entre
as empresas fabricantes.

O terceiro grupo, com 10,2%, reúne a turma “que fica em cima do muro”, aquela que só pensou, mas não tomou atitude de preferir ou retaliar produtos a partir da percepção sobre compromissos com a sociedade e o planeta.

No quarto grupo, com 8,2%, encontram‑se os retaliadores, que deixam de
comprar produtos e ainda criticam a empresa para terceiros, disseminando informações negativas. E o quinto grupo, uma espécie de elite do engajamento, congrega 7,1% de consumidores éticos que usam o seu poder de premiar e punir com a consciência de que estão contribuindo para estimular mudanças positivas de comportamento entre as empresas.

Mundo
O Monitor de Responsabilidade Social 2009, realizado desde 1999 pela Market Analisys  em parceria com o Instituto Globescan (Canadá), revela que quase seis em cada 10 consumidores da América do Norte (56%) e da Oceania (54%) admitem ter preferido produtos de empresas socialmente responsáveis, além
de promover a propaganda “boca a boca” em favor dessas organizações. Na Europa, 29% alegaram o mesmo comportamento, contra 24% na Ásia e África, e 11% na América do Sul.

Na outra direção, o chamado consumo de retaliação, caracterizado por um espírito de boicote, também segue em alta em alguns dos principais países do mundo. Nos EUA, 62% dos consumidores dizem punir empresas vistas e percebidas como irresponsáveis. Canadá (57%), Itália (46%) e Reino Unido (46%) vêm sem seguida. China (34%) e Japão (31%) estão em patamares inferiores. “Mas, em 10 anos, saltaram de índices pífios — respectivamente
11% e 7% — confirmando a maior valorização do tema no ato de consumo
também entre os líderes asiáticos. O assunto está na agenda mundial”, conclui o dossiê elaborado por Ricardo Voltolini, diretor de Ideia Sustentável, que estádisponível para download no Portal Unomarketing.

Consumo
Apoio relevante para a elaboração do dossiê também foi a análise sobre a sociedade de consumo feita pelo consultor Luiz Bouabci, da Mob Consult, empresa especializada em mapeamentos de rede. Com uma ampla análise do comportamento na história do consumo e seus principais marcos históricos, como o feudalismo, o mercantilismo, a Revolução Industrial, o Fordismo e o consumo de massa, Bouabci conclui que a durabilidade, antes característica principal de produtos fabricados, deu lugar à obsolescência.

De acordo com o estudo, a partir da ideia de “modelo do ano” lançada pela General Motors na década de 20, os consumidores passaram a experimentar “o amor pelo novo” e a ritmar o consumo pela capacidade inovadora da indústria em gerar diferenciação entre os produtos. A partir da década de 60, a moda passou a ser fator determinante para status social incentivando o consumismo conspícuo. “Hoje a obsolescência já faz parte da estratégia de marketing de muitas empresas e fomenta a cultura do descarte”, comenta.

Entretanto, o consultor é otimista quanto aos movimentos de transformação desse comportamento de consumo, ainda que obscurecidos pela falta de informação. Segundo ele, problemas como “as mudanças climáticas, a escassez de recursos, o acúmulo de lixo e desordens sociais têm alertado a população global de que é preciso agir”.