Das 1.087 auditorias feitas em 2010, nove foram no Brasil
19-08-2011

Brasil respondeu por nove checagens iniciais (e não de acompanhamento) do total de 1.087 auditorias promovidas ao longo do ano passado, nos mais diversos países do mundo, pelo grupo espanhol Inditex, dono da marca Zara

Por Bianca Pyl e Maurício Hashizume

São Paulo (SP) – Nenhum fabricante da Zara no Brasil foi reavaliado em 2010 pelo sistema de auditorias de monitoramento mantido pela transnacional Inditex, que controla a marca de roupas e acessórios. Entre as 1.087 auditorias promovidas no ano passado, apenas nove checagens iniciais (e não de acompanhamento) foram realizadas no país. As informações constam do próprio relatório anual da Inditex, disponível na internet.

Clique na foto acima para acessar a reportagem sobre trabalho escravo na cadeia da Zara (BP)

 

Em resposta aos questionamentos daRepórter Brasil acerca dossucessivos flagrantes de exploração de trabalho escravo em oficinas de costura que produziam blusas, vestidos e calças da marca, a empresa classificou os casos encontrados como episódios isolados de “terceirizações não autorizadas”. “Nunca havia sido identificado um caso similar. A cadeia de produção da Inditex no Brasil representa um conjunto de mais de sete mil trabalhadores que desenvolvem suas atividades em empresas que cumprem tanto a legislação brasileira quanto o código de conduta [criado em 2001 e atualizado em 2007]”, justificou a companhia de origem espanhola, que confirmou manter relações com pelo menos cerca de 50 fornecedoras que produzem para a marca Zara no país. Mais de 1,33 mil fornecedores da Inditex do mundo todo são obrigados a aderir ao código de conduta do grupo de origem espanhola.

“A contratação de auditores independentes – companhias especializadas, reconhecidas mundialmente pela qualidade do seu trabalho – garante a objetividade e transparência do sistema de controle, que inclui auditorias anuais, as quais cobrem todos os aspectos incluídos no código de conduta e, obviamente, os relativos aos direitos humanos e laborais”, adicionou a empresa com relação ao programa “Tested to Wear” (Testado para Vestir).

Uma diretora da marca espanhola no Brasil declarou ao programa “A Liga”, da TV Bandeirantes (que acompanhou a fiscalização trabalhista em questão juntamente com a Repórter Brasil), que o fabricante intermediário envolvido no mais recente caso de escravidão (AHA Ind. Com. Roupas Ltda., que também utiliza a razão social SIG Ind. Com. Roupas Ltda.) “trabalha conosco há muito tempo”. De acordo com ela, os fornecedores, em geral, “são totalmente auditados” e o grupo detém controle da produção dos terceirizados por meio de “cerca de 300 auditores que trabalham mundo afora”.

O mesmo relatório de 2010 mostra, contudo, que a empresa contratou os serviços de apenas seis pessoas de outra empresa (ITS) para aferir o cumprimento do código de conduta no decorrer do ano. A reportagem não conseguiu contato com representantes da ITS para confirmar quais foram os serviços prestados à dona da Zara até hoje.

Em outra seção do mesmo relatório, a Inditex nomeia a Intertek como responsável pelas nove auditorias iniciais concluídas em 2010. À Repórter Brasil, a consultoria comunicou que “face aos acordos de confidencialidade que o grupo Intertek mantém a nível global, não nos é permitido informar, sem as devidas autorizações, para quais empresas trabalhamos”.

Também consultada, a SGS (que também prestava serviços às lojas da rede Pernambucanas quando houve outro flagrante no magazine varejista) declarou que “estabeleceu recentemente um contrato internacional, por meio de sua filial na Espanha, cujo escopo de atuação inclui auditorias em fornecedores da Inditex no Brasil, com o objetivo de verificar aderência da cadeia de fornecimento do grupo com o seu respectivo código de conduta”.

“Em 2010, não realizamos auditoria para o grupo Inditex no Brasil”, assegurou a SGS à reportagem. Com relação a 2011, a consultoria se manifestou dizendo que não tem como precisar a quantidade de auditorias realizadas por não ser a única prestadora de serviços desta natureza ao grupo. “Em função de acordo e cláusulas contratuais firmados entre as partes, todas as informações referentes às auditorias realizadas para o Grupo Inditex devem ser obtidos diretamente com o representante legal da organização [contratante]”.

No posicionamento inicial encaminhado à Repórter Brasil, a Inditex afirmou primeiramente que “a base fixa de fornecedores atende a níveis de qualidade tanto no que se refere a seus produtos, quanto às condições em que são fabricados, como revela nosso sistema de auditoria regular” e que 75% dos fornecedores obtêm as qualificações máximas.

Chamada a oferecer mais detalhes do funcionamento do sistema de auditorias e da partilha de responsabilidades entre empregados do próprio grupo (apenas 15 contratados diretamente) e das terceirizadas (244 pessoas, a maioria absoluta focada no monitoramento nas nações asiáticas) dentro do “sistema de auditoria regular” em questão, a controladora da Zara se limitou a responder que não tinha mais nada a acrescentar sobre a questão.

Em outra seção do seu relatório anual, a companhia confirmou ainda que nenhum profissional de consultorias especializadas foi contratado para acompanhar a área de Saúde e Segurança do Trabalho (SST) ao longo de 2010 no Brasil. Na Turquia, por exemplo, 80 pessoas foram recrutadas para se dedicar a esse mesmo fim durante o referido período.

O lucro da Inditex cresceu 32% – e atingiu € 1,732 bilhões – em 2010. O salto nas vendas foi de 13%. O grupo investiu € 750 milhões e abriu o impressionante número de 437 novas lojas em 55 países no ano passado. Já são mais de 5 mil, ao todo. A Zara, com mais de 120 inaugurações, responde aproximadamente por dois terços das vendas globais da Inditex.

Com mais de 100 mil empregados contratados e em 80 países, a companhia vem destacando também que, além do código de conduta baseado em diretrizes internacionais e na legislação trabalhista local vigente, mantém acordo em caráter global com a Federação Sindical Internacional de Trabalhadores do Setor Têxtil e Couro (ITGLWF), em que ambas as partes se comprometem a colaborar na vigilância dos direitos laborais no setor.