Zara Brasil é suspensa de pacto contra escravidão
17-08-2012

Ação judicial que defende a inconstitucionalidade da “lista suja” motivou suspensão da grife espanhola, envolvida em flagrante de escravidão em 2011

Comitê de Gestão e Monitoramento

A grife de roupas Zara está suspensa do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, iniciativa que reúne empresas comprometidas em atuar contra empreendimentos que exploram a escravidão contemporânea.

Integrada à iniciativa em novembro de 2011 (quando incentivou também a adesão de suas 48 fornecedoras), a Zara foi punida por decisão do Comitê de Coordenação e Monitoramento. A defesa da inconstitucionalidade da “lista suja” do trabalho escravo por parte da empresa, em ação judicial, acarretou na suspensão da filial brasileira da companhia – que tem sede na Espanha e vem a fazer parte do grupo Inditex, considerado o mais valioso conglomerado empresrial do setor têxtil em todo o mundo.

De acordo com comunicado assinado pelos membros do Comitê (confira íntegra abaixo), o comportamento da Zara, ao contestar o cadastro de empregadores envolvidos em casos de exploração de mão de obra escrava no âmbito da Justiça do Trabalho, “afronta” e “enseja a violação” dos princípios basilares e formadores do Pacto Nacional, articulação em atividade desde 2005. Ressalte-se que, mesmo após pedido prévio de esclarecimento feito pelo Comitê, a empresa informou que está convicta na manutenção de sua posição.

A suspensão da Zara teve início nesta sexta-feira (17) e está condicionada, segundo o Comitê, “à existência e tramitação do processo e às eventuais decisões judiciais sobre os pedidos constantes da Ação Anulatória”. A Justiça do Trabalho já concedeu liminar para que a Zara Brasil Ltda. não seja incluída na “lista suja” do trabalho escravo; o processo da empresa contra a União corre na 3ª Vara do Trabalho de São Paulo (SP).

No final de junho de 2011, uma fiscalização coordenada pela Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de São Paulo (SRTE/SP) encontrou 15 pessoas – incluindo uma adolescente de 14 anos de idade – produzindo peças de vestuário da Zara em condições análogas à escravidão.

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COMUNICADO

 

São Paulo e Brasília, 16 de agosto de  2012.

 

A/C Zara Brasil Ltda.

Agradecemos o envio da resposta referente à solicitação do Comitê de Coordenação e Monitoramento do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo para esclarecimento do posicionamento da empresa sobre a Ação Anulatória ajuizada perante a Justiça do Trabalho, na qual se alega a inconstitucionalidade do Cadastro de Empregadores Flagrados Explorando Mão de Obra Análoga à de Escravo (Portaria Interministerial nº 2 do MTE/SDH) e da Instrução Normativa de nº 91/2011 do MTE.

Tendo em vista o posicionamento reiterado pela Zara Brasil em manter a aludida ação, o Comitê se reuniu e deliberou sobre o comportamento da empresa como signatária do Pacto. Na oportunidade, o Comitê concluiu que o questionamento à constitucionalidade da “Lista Suja” afronta os princípios basilares e formadores do Pacto.

Cumpre ressaltar que um dos principais compromissos que compõem o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo é o de restringir vínculos comerciais e financeiros com empregadores que sejam inseridos na “Lista Suja”. Sem esse instrumento, as empresas signatárias perderiam sua base consultiva oficial para um controle rigoroso de suas cadeias produtivas.

Importa destacar que tal comportamento como signatária enseja violação aos princípios do Pacto Nacional e ao próprio texto que o constitui. Deste modo, destacamos os seguintes pontos, in verbis:

Considerando:

a) A existência de lista de empregadores e/ou de seus intermediários que
exploram mão de obra escrava no Brasil (Portaria MTE 540/2004*), que
lançam mão de coerção física e moral cerceando a livre opção e a livre ação de
trabalhadores;
(…)
Acordam os signatários em incrementar esforços visando dignificar e modernizar as relações de trabalho nas cadeias produtivas dos setores comprometidos no “Cadastro de empregadores Portaria MTE 540/2004” que tenham mantido trabalhadores em condições análogas à escravidão. Para tanto, dentro de suas esferas de competência, as partes se comprometem a:
(…)
2. Definir restrições comerciais àquelas empresas e/ ou pessoas identificadas na cadeia produtiva que se utilizem de condições degradantes de trabalho associadas a práticas que caracterizam escravidão (…).

Em que pese a empresa reafirmar seu interesse em continuar apoiando as ações de melhoria das condições no setor têxtil em São Paulo, assim como o compromisso em combater o trabalho escravo em sua cadeia produtiva (o qual defendemos e consideramos de suma importância), resta claro seu comportamento contraditório ao promover judicialmente o questionamento da constitucionalidade de um dos principais instrumentos de combate ao trabalho escravo no Brasil e do Pacto Nacional, tido inclusive como referência
internacional.

Isto posto, o Comitê informa que, com base no Código de Conduta, Item “F”, referente a casos omissos (“Os casos não previstos neste Código de Conduta serão decididos pelo Comitê de Monitoramento do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo“), decidiu pela suspensão, por prazo indeterminado, da empresa Zara Brasil Ltda. do Pacto Nacional.

Tal suspensão terá início a partir do dia 17 de agosto de 2012 e sua vigência ficará condicionada à existência e tramitação do processo e às eventuais decisões judiciais sobre os pedidos constantes da Ação Anulatória.

Atenciosamente,
COMITÊ DE COORDENAÇÃO E MONITORAMENTO DO PACTO
NACIONAL PELA ERRADICAÇÃO DO TRABALHO ESCRAVO
Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social
Instituto Observatório Social
ONG Repórter Brasil
Organização Internacional do Trabalho

 

*Em 12 de maio de 2011, a Portaria MTE 540/2004 foi alterada para a Portaria Interministerial MTE/SDH nº 2/2011.