Fotógrafa americana registra a escravidão moderna
03-10-2014

Durante dois anos a fotógrafa americana Lisa Kristine viajou o mundo registrando a dura e insuportável realidade da escravidão moderna. Trabalhadores se arriscando nas profundas minas de Gana, outros expostos a temperaturas de 55 graus na produção de tijolos na Índia, crianças carregando pedras mais pesadas que os seus próprios corpos nos Himalaias,  mulheres, jovens e crianças sendo explorados e abusados sexualmente no Nepal estão entre os casos que marcaram seus dolorosos registros.  Em janeiro de 2012, a fotógrafa compartilhou na conferência TEDxMAUI, um pouco sobre o que viu. Abaixo, a transcrição de alguns trechos do seu relato.

Estou a 45 metros e profundidade em uma mina em Gana. O ar está pesado, com calor e o pó. E é difícil de respirar. Eu posso sentir o roçar de corpos suados a passar por mim na escuridão, mas não consigo ver muito mais. Ouço vozes a falar, mas o poço é sobretudo esta cacofonia de homens a tossir e pedras sendo partidas com ferramentas primitivas. Tal como os outros, uso uma lanterna barata e trêmula presa à minha cabeça com uma faixa elástica esfarrapada e mal consigo perceber as vigas de madeira que impedem as pareces desse buraco de caírem dezenas de metros para dentro da terra. Quando as minhas mãos escorregam, lembro-me subitamente de um mineiro que tinha conhecido uns dias antes e que tinha perdido o apoio caindo vários metros naquele poço. Começávamos a falar de escravidão, e acreditem, comecei a aprender sobre escravidão. É claro que eu sabia que existia no mundo, mas não a esse nível. Depois de acabarmos a conversa, me sentia tão mal e verdadeiramente envergonhada com a minha própria falta de conhecimento sobre essa atrocidade. E pensei: “se eu não sei, quantas pessoas não sabem?”.  A escravidão moderna tem a ver com o comércio. Os bens produzidos por pessoas escravizadas têm valor, mas as pessoas que os produzem são descartáveis. (…)

Veja a galeria de fotos de Lisa Kristine sobre a escravidão moderna 

Assista ao depoimento completo de Lisa Kristine no TEDxMAUI – 2012

(…) Na Índia e no Nepal fui apresentada às fábricas de tijolos. Esta estranha e incrível visão era como entrar no Antigo Egito ou no Inferno de Dante. Expostos a temperaturas de 55 graus, homens, mulheres, crianças, famílias inteiras, na verdade, envoltas em um pesado manto de pó, enquanto empilhavam tijolos na cabeça, mecanicamente, até 18 de cada vez, e os carregavam desde os tórridos fornos até os caminhões a centenas de metros de distância. Enfraquecidos pela monotonia e pela exaustão, eles trabalham em silêncio, repetindo esta tarefa várias vezes seguidas durante 16 ou 17 horas por dia. Não havia intervalos para comer ou para beber água, e a severa desidratação fazia com que nem precisassem urinar. O calor e o pó eram tão intensos que a minha câmera ficou tão quente, a ponto de eu mal conseguir tocá-la, e parou de funcionar. A cada 20 minutos, eu tinha que correr de volta ao nosso jipe para limpar o meu equipamento e passá-lo por baixo do ar condicionado para o ressuscitar, e enquanto estava sentada pensava: “a minha câmera está tendo um tratamento bem melhor do que estas pessoas”. De volta os fornos, queria chorar, mas o abolicionista ao meu lado rapidamente me agarrou e disse: “Lisa, não faça isso aqui. Não faça isso aqui, por favor”. Ele me explicou muito claramente que manifestações emocionais são perigosas em lugares como este, não apenas para mim, mas para eles. Eu não poderia oferecer-lhes nenhuma ajuda direta. Eu não podia dar-lhes dinheiro. Nada. Não era uma cidadão daquele país. Poderia colocá-los em uma situação pior do que aquela em que já estavam. Teria que confiar no trabalho da Free the Slaves [que a acompanhava]  para a sua libertação e eu confiei que o fizessem. Quanto a mim, tive que esperar chegar em cassa para realmente sentir a minha tristeza.

Nos Himalaias, encontrei crianças que transportavam pedras, descendo milhas por terrenos montanhosos até caminhões que as esperavam nas estradas lá embaixo. As grandes lâminas de ardósia eram mais pesadas do que as crianças que as carregavam. As crianças içavam-nas na cabeça usando estes arneses artesanais de paus e corda e panos rasgados. É difícil testemunhar uma coisa tão esmagadora. Como é que podemos influenciar algo tão pérfido, e ainda tão disseminado? Alguns nem sabem que estão sendo escravizados – pessoas que trabalham 16 ou 17 horas por dia sem serem pagas, sem receber nada por isso – porque tem sido assim toda a sua vida. Eles não tem nada com o que comparar. Quando essas pessoas reclamaram a sua liberdade, os esclavagistas queimaram todas as suas casas. Isto é, essas pessoas não tinham nada e ficaram tão petrificadas que quiseram desistir. (…)

(…)Tráfico de pessoas é o que nós pensamos quando ouvimos a palavra escravidão e, devido a esta consciência mundial, fui avisada que seria difícil para mim trabalhar de uma forma segura nesta indústria em particular. Em Katmandu, [capital do Nepal] fui escoltada por mulheres que tinham sido escravas sexuais. Conduziram-me por umas escadas estreitas que levavam a uma caverna fluorescente, suja e francamente iluminada. Não era um bordel, por si só, era mais como um restaurante. Os restaurantes-cabine, como são conhecidos no mercado, são locais de prostituição forçada. Têm quartos privados, pequenos, onde os escravos, mulheres, juntamente com meninas e rapazes, alguns tão novos como sete anos, são forçados a enterter os clientes, encorajando-os a comprar mais comida e álcool. Os cubículos são escuros e sujos, identificados com um número pintado na parede e divididos com compensados de madeira e cortinas. As vítimas sofrem frequentemente com abusos sexuais trágicos nas mãos de seus clientes. Lembro-me de sentir, no meio daquela escuridão, um medo rápido e quente e, nesse instante, só conseguia imaginar o que deve ser estar encurralado naquele inferno. Só havia uma saída: as escadas por onde tinha vindo. Não havia portas de fundo. Não havia janelas suficientemente grandes por onde se pudesse passar. Estas pessoas não têm saída possível.

E a medida que vamos assimilando esta difícil questão, é importante lembrar que a escravidão, incluindo o tráfico sexual, também acontece em nosso próprio quintal. Milhares de pessoas são escravizadas na agricultura, em restaurantes, nos trabalhos domésticos, e a lista continua. Recentemente o New York Times divulgou que entre 100 mil  e 300 mil crianças americanas são vendidas para a escravidão sexual todos os anos. Está tudo à nossa volta. Só que não vemos.  

Trabalho escravo no mundo

Relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre trabalho escravo, publicado em 19 de maio de 2014, estima que os lucros totais obtidos pelo uso de trabalho forçado na economia privada em todo o mundo totalizam US$ 150 bilhões ao ano. A maioria dessa receita foi gerada na Ásia, sendo que dois terços do valor acumulado nesta região têm origem na exploração sexual comercial. Segundo a organização, cerca de 21 milhões de homens, mulheres e crianças se encontram em trabalho forçado. A maioria, 90%, é explorada na economia privada. A pesquisa de 2012 também apontou que 22% do total são vítimas de exploração comercial sexual e 68% são vítimas da exploração do trabalho forçado, por exemplo, na agricultura, na construção civil, no trabalho doméstico ou na manufatura.

 

Fonte: TEDxMAUI

Imagem: Flickr/CC/Kaiscapes Media – Peter Liu

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